OS MANANCIAIS DE ABASTECIMENTO DO SISTEMA INTEGRADO DA REGIÃO METROPOLITANA DE CURITIBA - RMC

 

     A disponibilidade de água, tanto em quantidade como em qualidade, é um dos principais fatores limitantes ao desenvolvimento das cidades.

    O crescimento urbano desordenado e de uma agricultura predatória soabre os rios utilizados para o abastecimento público, têm apresentado graves reflexos na qualidade das águas, com altos custos econômicos e sociais. A demanda tem aumentado, em função, além do crescimento populacional, da elevação do consumo per capita.

    O crescimento da demanda de água para abastecimento público na Região Metropolitana de Curitiba (RMC), apresenta atualmente da ordem de 300 l/ s. ano, índice este que aumentará em função do aumento da demanda total.

    Para a manutenção sustentável do recurso natural água é necessário o desen-volvimento de instrumentos gerenciais de proteção, planejamento e utilização, adequando o planejamento urbano de acordo com a vocação natural do sistema hídrico.

    Este trabalho apresenta a situação dos principais mananciais da RMC e os agentes de degradação.

    O setor de saneamento necessita incluir o desafio da conservação de mananciais nas diversas etapas do processo, desde o planejamento até a operação, em todos os níveis institucionais das companhias de saneamento.

 

    Introdução

    Pela sua característica de ser o solvente universal, a água desempenha um importante papel como elemento de ligação entre os compartimentos ambientais, refletindo na sua qualidade a forma de como a bacia é usada. O aumento da demanda causado pelo crescimento populacional e pela signi-ficativa ampliação dos níveis de consumo per capita encontra uma disponibilidade cada vez mais reduzida determinada pela degradação da qualidade, que inviabiliza determinados usos.

    A disponibilidade de água, tanto em quantidade como em qualidade, é um dos principais fatores limitantes ao desenvolvimento das cidades. Para a manutenção sustentável do recurso água é necessário o desenvolvimento de instrumentos gerenciais de proteção, planejamento e utilização, adequando o planejamento urbano de acordo com a vocação natural do sistema hídrico. Tratamento especial e diferenciado deve ser dado às bacias consideradas como manancial de abastecimento, pois a qualidade da água bruta depende da forma pela qual os demais compartimentos do sistema são manejados.

    Em levantamento realizado em 1997 sobre a visão das companhias de saneamento em relação a conservação de mananciais, LARA et al. (1999) identificaram que embora todos os entrevistados (23 de um universo de 27 empresas) considerem a questão importante e necessária, apenas 11 companhias possuem algum tipo de programa para a conservação de mananciais que incluem desde projetos de despoluição até planos de ação integrados entre órgãos. As demais empresas relataram não possuírem programas específicos, sendo que destas apenas uma empresa estava iniciando um diagnóstico ambiental e plano de conservação de mananciais. Esta informação retrata a forma como os recursos hídricos estão sendo tratados apesar da existência da Política Nacional de Recursos Hídricos. Neste sentido vale ainda ressaltar que são poucos os estados que instituíram sua política estadual sobre o tema e implantaram as medidas nela previstas.

    No Estado do Paraná, segundo SANTOS (1998) algumas iniciativas já existiram no sentido de se tratar das questões de recuperação e/ou conservação de mananciais, mas por dificuldades de articulação entre instituições ou de recursos financeiros, não foram levadas a termo. Atualmente a Sanepar possui um Programa de Conservação de Mananciais que tem por objetivo a implementação de ações estruturais e não-estruturais visando a melhoria da qualidade das águas dos mananciais de abastecimento público e sua manutenção.

    Para a consecução deste objetivo, o programa conta com o suporte financeiro do Fundo Rotativo de Meio Ambiente criado pela Empresa para subsidiar as gerências no desenvolvimento de projetos que contem com a articulação de outras instituições como parceiras ao desenvolvimento das atividades. Além desta iniciativa da Empresa, um amplo programa de pesquisa está sendo iniciado por meio da execução do Plano Integrado de Gerenciamento de Mananciais, projeto desenvolvido com o apoio da Financiadora de Estudos e Projetos através do PADCT III, cujo objetivo é criar instrumentos para a melhoria e/ou conservação dos mananciais de abaste-cimento. No Estado do Paraná, a Sanepar nas 700 localidades onde atua atende uma população aproximada de 7,4 milhões de habitantes utilizando-se de 950 mananciais de abastecimento. Segundo SANTOS (1998) em levantamento recente foram identificados cerca de 110 mananciais de abastecimento público de água com sinais de degradação.

 

    A evolução da demanda de água na RMC

 

    A demanda tem aumentado, em função, além do crescimento populacional, da elevação do consumo per capita. O crescimento da demanda de água para abastecimento público na RMC, apresenta-se atualmente da ordem de 300 l/s.ano, índice este que aumentará em função do aumento da demanda total, conforme o Quadro1.

 

    O sistema atual de produção de água de Curitiba

 

    A bacia do Alto Iguaçu tem 565 km2 com uma vazão específica média de 17,5 l/s . km2, alcançando até 22 l/s. km2 onde as chuvas são mais freqüentes, como nas cabeceiras do Rio Pequeno. Além dos mananciais superficiais, o sistema recebe atualmente 200 l/s do aqüífero cárstico, que abastece principalmente a cidade de Colombo (sistema interligado). O sistema produtor alcança desta forma uma produção de 6.950 l/s, convivendo a região portanto com um pequeno déficit operacional, pois a demanda é pouco superior a 7.000l/s.

 

    A situação dos mananciais atuais e potenciais para a RMC

 

    A vazões consideradas neste trabalho atendem as determinações do Decreto Estadual 974 de 9/12/91 que define que a vazão de jusante mínima exigida após a captação seja equivalente à 50% da vazão de um período de recorrência de 10 anos com 7 dias de duração (Q(10,7)). Como o presente trabalho faz uma avaliação estratégica, os dados utilizados a seguir são aproximados e portanto para elaboração de projetos ou trabalhos, que exigem maior precisão, as áreas e vazões deverão ser recalculadas.

Bacia do Altíssimo Iguaçu

 

    Essa bacia possui 565 km2 . Abriga duas captações de água, a captação Iguaçu e a captação Iraí. A bacia do Altíssimo Iguaçu é constituída pelos mananciais Iraí, Iraizinho, do Meio, Piraquara, Palmital, Itaqui e Pequeno, que produzem hoje no seu conjunto aproximadamente 5.600 l/s, já incluído o reservatório do Iraí (Projeto COBA/98). Quando da implantação das demais barragens, a serem construídas (Piraquara II e Pequeno), a capacidade dos mananciais do Altíssimo Iguaçu atingirá uma vazão disponível de 7.200 l/s. A bacia do Rio Atuba faz parte da bacia do Altíssimo Iguaçu, mas dado seu alto grau de degradação não é utilizada para captação, apresentando contudo grande importância no contexto da bacia, para garantir a vazão remanescente exigida pelo Decreto 974 de 9/12/1991.

    Estes mananciais têm o seu barramento em pontos mais afastados e a vazão regularizada alcança o ponto de captação, que se situa mais próximo do centro de consumo, percorrendo o próprio leito do rio, sendo portanto uma opção bastante econômica. Esta concepção tem ainda a vantagem de otimizar as vazões passíveis de serem captadas, em função da utilização das bacias incrementais de forma associada. Outro ponto de grande importância destes mananciais é o fato de que por se localizarem na área de influência da Serra do Mar, apresentam altíssimos níveis de precipitação pluviométrica, caracterizando conseqüentemente altas vazões específicas. Pelas características apresentadas os mananciais do Altíssimo Iguaçu são fundamentais para o abastecimento público da RMC, pois representam hoje 61,70 % da oferta de água do potencial da bacia do Alto Iguaçu, incluindo esta, coletados dentro da cidade e em uma posição topográfica extre-mamente favorável o que determina custos operacionais bastante reduzidos.

    Devemos destacar ainda que o sistema de distribuição do Iguaçu não é interligado com o sistema Passaúna, e portanto  qualquer problema de qualidade de água, causado por um acidente ou mesmo pela degradação paulatina, determinará a interrupção total do abastecimento de água para cerca de 2 milhões de habitantes. Se um acidente com produtos tóxicos ocorrer na área de influência da barragem do Iraí, que comprometa a qualidade da água para o abastecimento público, o período de suspensão do abastecimento seria superior a 90 dias, sendo que este é o tempo estimado para o esgotamento da barragem, com a entrada da vazão média do ano de 17,5 l/s . km2, entretanto deve-mos observar que não basta somente esgotar o lago, pois o produto tóxico fica aderente à superfície, o que prolonga ainda mais a "quarentena". Por esta razão deve ser implementado um sistema muito cuidadoso de prevenção de acidentes na BR-116 e no Contorno Leste, que passam dentro desta bacia. Além disto este risco deve ser também consi-derado na implantação de qualquer outra via de acesso e de outras atividades de risco na região.

    Bacia do Rio Irai - Com uma área de 113 km2, a bacia do Iraí aumenta em 1.800 l/s a vazão atualmente produzida através de sua regularização e caracteriza-se como o principal manancial do Altíssimo Iguaçu. A bacia é protegida por meio de uma Área de Proteção Ambiental - APA através do Decreto Estadual n.o 1753 de 06/05/93. A proximidade das cidades da Região Metropolitana define um grande potencial de urbanização desses mananciais. A construção do Contorno Leste é um dos principais fatores de pressão nestas áreas, por cortar transversalmente a bacia à montante da barragem. Para evitar este risco, o Estudo de Impacto Ambiental da obra, definiu que esta estrada seria classe zero, o que impede a construção de alças de ligação no trecho. Além da ampliação de riscos de acidentes, é fundamental a estrita observação desta exigência, pois qualquer ligação rodoviária será um grande estímulo à ocupação desor-denada dessa região

    Pelas características ambientais da barragem do Iraí que tem uma profundidade média de apenas 6 metros e um tempo de detenção de 2 anos, há riscos de eutrofização. Por esta razão apesar da rigorosa limpeza da área, prévia ao enchimento do reservatório, é necessária a criteriosa observação de cuidados para evitar o lançamento de nutrientes através de qualquer tipo de esgoto. O Prosam (Programa de Saneamento Ambiental) investiu com sucesso, através do PMA 03, aproximadamente 15 milhões de dólares na coleta e tratamento de esgotos, produzidos na área de influência da captação, e após, lançados em outra bacia. Está prevista a coleta de esgotos (que serão levados à estação de tratamento Atuba Sul) à jusante da barragem, na área de influência, da Colônia Penal Agrícola e do Presídio, incluindo os efluentes da produção de suínos, após prévio tratamento a ser realizado pelo próprio Presídio. Os resíduos sólidos produzidos no Hospital Adauto Botelho, pela Penitenciária e pela Colônia Penal Agrícola, têm sido levados para fora da bacia, no entanto dependem de uma solução definitiva. Na cabeceira do Rio Curralinho, um dos formadores do Iraí, existe atividade de mineração o que estimula a ocupação desordenada da área. São também observadas atividades industriais na bacia do Capivari que também estimula a ocupação da bacia do Iraí dada a proximidade de suas cabeceiras. A exploração agrícola de maior expressão na bacia é na Colônia Faria, que por tradição não tem uso intensivo de agrotóxicos.

    Bacia do Rio Iraizinho - As águas do Rio Iraizinho com uma bacia de 52,60 km2, e uma vazão de 156 l/s, são contribuintes do Rio Iraí à jusante da barragem. Devido à influência da cidade de Piraquara, a qualidade da água encontra-se bastante comprometida. Como a localização desta bacia inviabiliza qualquer possibilidade de desvio do rio da captação do Iguaçu é necessária a implantação de obras de coleta e tratamento de esgotos e da definição de políticas de regulamentação do uso e ocupação urbana e industrial.

    Bacia do Rio do Meio - Com uma área de drenagem de 40 km2, esta bacia produz uma vazão de 160 l/s de água de boa qualidade resultante de pequena urbanização, embora a existência de alguns loteamentos como o Conjunto Pio XII, que se localizam no espigão topográfico. Há também na bacia um clube de lazer que não causa pressão ambiental e é bastante compatível com a importância da área. Sugere-se loteamentos de chácaras de forma a garantir a ocupação ordenada da bacia com pequena densidade demográfica, reduzindo então a poluição chamada difusa.

    Bacia do Rio Piraquara - As águas do Piraquara são regularizadas através de uma barragem existente cuja bacia possui 27 km2 de área e, outra projetada com área de bacia de 58 km2 a qual acrescentará ao sistema 600 l/s. A área total de 85 km2 é protegida através do Decreto Estadual n. o 1754 de 6/5/96 que criou uma APA do Rio Piraquara à montante da futura barragem. Apresenta boa qualidade de água decorrente da excelente condição das áreas do reservatório Piraquara 1 e do uso predominante da bacia da futura barragem por chácaras e haras, onde quase inexiste ocupação através de loteamentos.

    Bacia do Rio Palmital - Drenando os municípios de Colombo e de Pinhais, o Rio Palmital com uma bacia de 93 km2 tem uma vazão de 372 l/s. O Rio recebe diversas contribuições de esgotos de áreas densamente povoadas, tais como a Vila Zumbi onde mais de 2.000 habitações não dispõem de estrutura de coleta e tratamento de esgoto. O carreamento de esgoto e lixo existente em galerias pluviais e valetas de drenagem nas fases iniciais de chuvas, especialmente após períodos de estiagem, provoca grandes alterações na qualidade da água (efeito valetão), o que tem causado paralisações freqüentes na ETA Iguaçu. Para evitar as cheias na região está sendo construído o Canal Extravasor, por onde podem ser conduzidas as águas do Iraí até a captação do Iguaçu. Estas águas serão direcionadas à captação do Iguaçu, desviando, portanto, as águas do Palmital, caso persista o grau de poluição hoje existente. Ocorre contudo que a Prefeitura de Pinhais está desenvolvendo um trabalho intenso visando a melhoria das condições ambientais, desse Rio, podendo esse trabalho reverter o processo de degradação, o que poderá ser avaliado com o monitoramento de suas águas.

    Em 14/3/94 foi criada a APA Municipal de Pinhais pelo Decreto n.o 134/94 a qual abrange uma parte importante do Município com a inclusão da Bacia do Palmital dentro desse Município. Com a perspectiva do envolvimento das diversas esferas do poder público, da sociedade e da iniciativa privada, podemos considerar que há possibilidade de melhorar paulatinamente a qualidade da água, pela implantação de sistemas de coleta e de tratamento avançado de esgotos, relocação de moradias, implantação de matas ciliares e revisão de critérios de urbanização. Somente com a avaliação dos resultados destes programas na qualidade das águas será possível avaliar a possibilidade de manutenção da captação de suas águas. Manter o Rio Palmital como manancial de Curitiba é um grande desafio, contudo é importante salientar que atualmente o mesmo não apresenta características de qualidade compatíveis com este uso. Entretanto todos os esforços direcionados neste sentido podem demonstrar a possibi-lidade de convivência pacífica entre um manancial e a urbanização.

    Bacia do Rio Itaqui - Drenando uma área de 39,80 km2 nos Municípios de Piraquara e São José dos Pinhais com loteamentos e com um processo de  ocupação acelerada, o Rio Itaqui tem uma vazão de 118 l/s. Recebe também o efluente da ETE Borda do Campo (lagoa facultativa e de maturação), que apresenta uma eficiência superior a 95%. Outra parte da bacia foi contemplada pelo programa PMA-03 com o transporte do esgoto a ETE Atuba Sul. Entretanto, devemos observar que a poluição difusa é diretamente proporcional à densidade demográfica da bacia, o que demonstra que o sistema de esgoto instalado por si só não representará a boa qualidade do manancial.

    Bacia do Rio Pequeno - A bacia do Rio Pequeno tem uma área de 140 km2 que produz 630 l/s a fio d'água, apresentando uma elevada vazão específica mínima, da ordem de 4,5 l/s.km2 Q(10,7), segundo o Plano Diretor. A área definida pela futura barragem será de 62.3 km2, capaz de regularizar um acréscimo de vazão de 1.000 l/s. Esta bacia apresenta intensa ocupação urbana numa área cerca de 50 km2 à jusante do Rio Quissis-sana e no Distrito Industrial de São José dos Pinhais. A foz do Rio Pequeno situava-se à jusante da Captação do Iguaçu, a qual através de um canal foi desviada para montante. Encontra-se protegida, à montante da futura barragem, por uma APA (Decreto 1752 de 6/5/93).

    Embora atualmente suas águas não estejam sendo utilizadas para o abastecimento público, devido à sua proximidade e produção favorável, esse Rio inevitavelmente voltará a ser manancial de abastecimento. A região mais à montante da bacia apresenta bom potencial, pois há uma boa cobertura florestal. Nesta região verifica-se a agricultura de subsistência e pequenas indústrias como abatedouros de aves.

    No caso da construção da barragem dois problemas deverão ser avaliados: a existência de cerca de 2 km de oleoduto que ficariam inundados e o projeto de uma ferrovia, com cerca de 7 km na área de inundação, que já tem algumas obras de arte construídas e demandaria uma revisão de traçado, preferencialmente fora da área de influência da bacia.

    É importante frisar que a existência do oleoduto na área a ser alagada constitui uma séria interferência a ser estudada, uma vez que, a Petrobrás não permite que o mesmo fique submerso.

 

    Bacia do Alto Iguaçu

 

    Margem esquerda

    Bacia do Rio Miringuava - Esta bacia localiza-se ao sul da cidade de Curitiba e tem um área total de 303 km2 , capaz de produzir 898 l/S. Após a construção da barragem com uma área de 71,9 km2, a vazão regularizada no pé da barragem será de 1.600/s. A bacia incremental entre a barragem e a captação será da ordem de 40 km2 , portanto totalizando uma área útil de 101.9 km2

    A cabeceira da bacia apresenta hoje boas condições de preservação, porém há pressão para desmatamentos gerada pela agricultura. Atualmente a maior expressão agrícola da bacia é da Colônia Muricy, localizada entre a captação e a barragem, na qual desenvolve agricultura convencional com o uso intensivo de agrotóxicos. Segundo o Plano Diretor de 1992, a vazão máxima para os irrigantes deverá atingir hoje cerca de 400 l/s, o que corresponde a um volume anual de 1.400.000 m 3. Abaixo da barragem, porém dentro da área da bacia incremental, portanto com influência na captação existe o oleoduto da Petrobrás. Mais à jusante, abaixo do ponto de captação previsto, verifica-se grande ocupação por loteamentos, influência da própria expansão urbana de São José dos Pinhais e várias indústrias de grande porte.

    Bacias dos rios Cerro Azul e Campina - As bacias dos rios Cerro Azul e Campina estão consideradas de forma integrada, pois são paralelas, muito próximas e sujeitas aos mesmos riscos ambientais e que têm a previsão de captação após a sua confluência, formando o Rio Miringuava Mirim. Ambas as barragens recebem as águas de uma área aproximada de 95 km 2, gerando uma vazão regularizada de 1.620 l/s, sem levar em conta a vazão de jusante.

    Praticamente no divisor de águas entre as duas bacias, encontramos a BR-376 gerando riscos de acidentes com cargas tóxicas e pressão de uso. A presença de grandes empresas na cabeceira do Rio da Campina é também um fator de estímulo à urbanização e da implantação de nova indústrias. Este conjunto de fatores determina uma grande probabilidade de problemas futuros com a conservação destas áreas. Portanto no panorama atual de apro-veitamento de mananciais, essas bacias não estão sendo consideradas para o abastecimento público.

    Bacias dos rios  Cotia e Des-pique - Inicialmente havia previsão da construção de uma barragem logo abaixo da confluência destes dois rios e portanto foram considerados associadamente. Diante de uma série de interferências de-correntes do desenvolvimento regional o aproveitamento desses rios foi indi-vidualizado para os rios Cotia e Despique. A bacia contribuinte do Rio Cotia tem uma área aproximada de 48km 2, que gera uma vazão mínima cerca de 200 l/s Q (10,7); o Rio Despique à montante da barragem tem aproximadamente 53 km2 de bacia com uma vazão de 650 l/s (180 l/s a fio d'água). Existe atualmente uma captação de água para fins industriais no Rio Cotia, para o qual está descartada a hipótese de regularizar sua vazão por meio de barragem, por estar muito próximo do complexo industrial Audi (montadora de automóveis), e também, por não apresentar condições topográficas favoráveis.

    Devido à influência do Distrito Industrial de Fazenda Rio Grande e do oleoduto/gasoduto, há uma proposta de revisão do Plano Diretor alterando o local da barragem à montante do oleoduto e do gasoduto da Petrobrás. Desta forma as vazões disponíveis seriam reduzidas, porém com melhor perspectiva de  manutenção da qualidade das águas. A bacia do Rio Despique tem uma impor-tância estratégica, pois suas cabeceiras encontram-se em posição topograficamente adequada para receber um aporte de 1.000 l/s de água proveniente da bacia do Rio da Várzea (com barragem de 3.600 l/s) A adutora que faria esta transposição teria um comprimento de aproximadamente 8 km. Estudos futuros poderão definir uma vazão inferior a esta, em função da existência do oleoduto com cotas de inundação também inferiores.

    Bacia do Rio Maurício - Embora com uma grande área de drenagem de 138 km2 que produz uma vazão de 409 l/s sem regularização, a previsão de barragem fica à montante da BR-116 recebendo água de uma área de 36 km2 gerando uma vazão regularizada de 590 l/s. O Plano Diretor previu a barragem nesta posição devido à existência de um plano de irrigação nas áreas de influência do Maurício e do Rio das Onças e pela influência do Distrito Industrial de Mandirituba. A cabeceira deste rio é moderadamente conservada e embora se situe próximo da BR 116, a rodovia não drena suas águas para a área da barragem. Da mesma forma, não obstante a proximidade do município de Mandirituba, a orientação do crescimento urbano é direcionada ao longo da rodovia, o que evita a pressão de urbanização na área da barragem.   

    Bacia do Rio da Onças (Mandirituba) - Existem na Região dois rios denominados como "das Onças", sendo um situado em Mandirituba, afluente do Maurício e outro situado à jusante da BR 476 que deságua no Iguaçu. O Rio das Onças (Mandirituba) drena uma pequena bacia de 29 km 2 produzindo uma vazão de 450 l/s após regularização. Este rio sofre influência do Distrito Industrial de Mandirituba, do uso de água para irrigação e da agricultura intensiva. 

    Bacia do Rio Faxinal - Com uma bacia de drenagem de 95,6 km2, a vazão mínima do Rio Faxinal é da ordem de 340 l/s. que após regularização com barragem, que recebe as águas de 63,3 km 2, alcançará 1.020 l/s. O principal problema desta bacia é o uso de água para irrigação e o uso em agricultura intensiva. Da mesma forma que a bacia do Despique, as cabeceiras do Faxinal se confrontam com o Rio do Poço (bacia do Várzea), de onde por meio de uma adutora de 10 a 15 km, poderia ser transposta uma vazão da ordem de 1.700 l/s com implantação de barragem.

    Bacia do Rio das Onças (Contenda) - O Rio das Onças se situa a aproximadamente 45 km de  Curitiba e drena uma área de 75.6 km2 produzindo uma vazão a fio d'água de 200 l/s que regularizada seria ampliada para 1020 l/s. O principal problema desta bacia é a BR-476 que corta transversalmente as suas cabeceiras, trazendo riscos de acidentes e facilita a sua ocupação, pois se encontra na área de influência urbana de Contenda e Araucária. Um novo estudo desse rio certamente excluirá a bacia de jusante da BR-476.

    Bacia do Rio Piunduva - Com uma pequena bacia de 25 km2 tem uma vazão de 72 l/S que regularizada poderia produzir 390 l/s. Tem os mesmos problemas do Rio da Onças, pois situa-se ao lado, porém com influência urbana de Contenda.

    Bacia do Rio Verde - O Rio Verde drena uma área de 257 km2 e tem uma vazão mínima de 730 l/s, sendo hoje utilizado pela Petrobrás e por esta razão não é considerado como manancial potencial. Parte de suas águas deverão ser utilizadas para o abastecimento de Campo Largo. 

 

Margem direita

    Bacia do Rio Passaúna - A bacia de drenagem do Rio Passaúna ocupa uma área de 145 km2 produz 2.000l/s para o sistema de Curitiba, protegida por uma APA criada em 1.991. Praticamente toda a área é transposta pela BR 277 o que determina riscos de acidentes e pressão de ocupação urbana dos muni-cípios de Curitiba e Campo Largo. Existe atividade industrial e agrícola com o cultivo da batata.

    Bacia do Rio Itaqui - O Rio Itaqui com uma bacia de drenagem de 128 km2 e com uma vazão de 512 l/S poderia alcançar cerca de 2.000 l/s com regularização.

    Ocorre contudo que este Rio está sendo abandonado como manancial de Campo Largo devido à urbanização desse próprio município e portanto a sua utilização demandaria um intenso programa de recuperação da qualidade. Será substituído pelo Rio Verde.

 

    Bacia do Rio da Várzea

    O Rio da Várzea faz parte da bacia do  Iguaçu, porém como a sua foz fica muito distante de Curitiba, a possível captação seria realizada aproximadamente a 60 km e suas águas seriam transportadas por meio de adutora. Com uma área de 475 km2, tem uma vazão estimada de 8.780 l/s; trata-se portanto de uma bacia muito produtiva, pois nasce na Serra do Mar, onde a pluviosidade é muito elevada.

    O desnível topográfico em relação a Curitiba é de aproximadamente 130 m, o que determinaria uma altura manométrica total de 280 mca (considerando a perda de carga de 2,5 m/km a distância de 60 km), com reflexos significativos nos custos de implantação e operacional.

    A bacia é cortada pela BR 376 nas cabeceiras, porém como a proposta do ponto de captação seria na foz do Rio Caí, ficaria parcialmente fora da influência da BR-116. Outras estradas internas que ligam Rio Negrinho e Areia Branca também são fatores que pressionam a qualidade das águas. Esta bacia tem grande potencial agrícola e é utilizada com agricultura intensiva.

    Sofre influência dos municípios de Tijucas do Sul, Agudos do Sul e Distritos como Areia Branca dos Assis, Campestre, Tabatinga, Morro Vermelho, Campo Alto e ainda vários lugarejos onde habitam os agricultores e demais moradores da bacia. 

 

    Bacia do Ribeira

    Bacia do Rio Capivari - Apresenta uma vazão de 17.100 l/s com uma distância aproximada de 50 km de Curitiba. Esta barragem é utilizada para a geração de energia elétrica pela Copel que através de um túnel lança suas águas em um desnível de cerca 750 metros ao Rio Cachoeira, gerando 250 MW. Desta forma qualquer utilização desse rio para abastecimento público deverá ser negociada com a empresa concessionária a fim de cobrir o valor da energia não-gerada.

    Já foram avaliadas contudo, alternativas de aproveitamento parcial pela transposição de aproximadamente 1.000 l/s para a bacia do Iraí. Neste caso a Sanepar deveria ressarcir a Copel pela água utilizada ou ainda lançar água de outra bacia para compensar a retirada de água do Capivari.

    A bacia sofre influência urbana de Campina Grande do Sul, Bocaiúva do Sul, parte de Colombo e outras localidades. Sobre estas áreas também há influência da agricultura, especialmente de Colombo.

    Bacia do Açungui - Com 1.265 km2 de bacia o Açungui tem uma vazão mínima de 3.030 l/s, que regularizados poderiam produzir 14.400 l/s (já descontada a vazão de jusante).

    A grande vantagem desta bacia, além do alto potencial hídrico, é o seu baixo potencial agrícola e urbano. Assim as vertentes de fortes declives têm boa cobertura vegetal e encontram-se bem protegidas.

    Sofre influência de São Luiz de Purunã, porém não há grande pressão urbana.Com um desnível topográfico de aproximadamente 425 m e com uma distância de 50 km, a pressão manométrica seria de cerca de 620 mca, o que determina um alto custo operacional e de implantação.

 

    Bacia do Rio Cubatão

    Bacia do Rio Arraial - Esta bacia apresenta uma vazão útil de 6.300 l/s que também é usada para a geração de energia elétrica pela Copel e portanto a sua utilização dependeria de ressarcimento àquela companhia. A forma de utilização seria pela transposição de bacia para o Pequeno ou para o Miringuava por um túnel, portanto com altos custos de investimento. A distância da adutora seria de aproximadamente 15 km e um desnível maior que 150 m, sendo necessária uma pressão de cerca de 240 mca.  

 

    Aqüíferos subterrâneos

    Estima-se que em Curitiba e nos municípios próximos, a exploração dos aqüíferos subterrâneos pode atingir a 2m³/s. Relacionando-se aos aproximadamente 7m³/s captados pela Sanepar dos rios formadores e afluentes do Rio Iguaçu, esta considerável vazão está sendo extraída através de mais de 2.000 poços distribuídos por toda a região. Desses, 124 são explorados pela Sanepar e os demais por indústrias, condomínios, hospitais, postos de gasolina, sistemas rurais, poços do sistema municipal de abastecimento público de Rio Branco do Sul, etc.

    Embora pouco estudada, a contribuição dessas reservas de água naturalmente puras reveste-se de grande importância estratégica para a região de maior desenvolvimento e de maior concentração populacional do Estado do Paraná. Ainda mais quando se constata que a Grande Curitiba está localizada em região de pouca disponibilidade de água, e onde já é preocupante a crescente escassez de água para consumo humano.

 

    1. Aqüífero Karst

    O Aqüífero Karst é o mais importante. Ocorre nos municípios situados ao Norte de Curitiba, desde Campo Largo até Bocaiúva do Sul, e mais ao norte, até a divisa com o Estado de São Paulo, numa área total de 2.800 km². É formado por estruturas criadas pela carstificação de rochas carbonáticas, resultando quase sempre em águas minerais alcalino terrosas. Estas estruturas estanques são compartimentadas por diques de diabásio, filitos e quartzitos. Estudos indicam sua reserva de capacidade de produção total estimada entre 7 e 14 m³/s. Suas principais características, além das já citadas, são a grande sensibilidade às agressões antrópicas e a fragilidade geotécnica provocada pelo processo natural de dissolução da rocha pela ação da água. Muitos dos compartimentos já estão com suas águas contaminadas. Já ocorreram muitos acidentes e danos em propriedades construídas em áreas sujeitas a carstificação, mostrando claramente a necessidade de cuidados especiais com relação ao uso e ocupação do solo e indicando a incompatibilidade com a urbanização. Todos os municípios citados já são abastecidos por meio de poços cujas vazões variam de 10 a 200 m³/h. Até 2002 a Sanepar estará extraindo 1 m³/s de água desse aqüífero. Cumpre ressaltar que a quase totalidade desses municípios não dispõe de fontes alternativas viáveis para seu abastecimento, ensejando desde já a necessidade de elaboração de planejamento regional de longa duração, com vistas à sua conservação.

    A região do Karst mais próxima de Curitiba foi incluída na Legislação de Proteção de Mananciais da Região Metropolitana de Curitiba. A regulamentação do uso e ocupação do solo está sendo estudada pela Comec (Coordenação da Região Metropolitana de Curitiba).

 

    2. Aqüífero Guabirotuba

    São formados por pacotes argilo siltosos com lentes arenosas situados sobre o embasamento cristalino e ocorre a leste de Curitiba. É o de menor expressão e a Sanepar explora poços situados em Pinhais (Iapar) próximos do reservatório do Rio Iraí. A Sanepar está desenvolvendo um projeto de pesquisa com vistas à possibilidade de utilização desse reservatório com fonte de recarga artificial dos pacotes do aqüífero e, conseqüentemente espera aumento de produção dos mesmos.

    Uma região do aqüífero apresentou ferro e manganês, indicando a possibilidade de contaminação por um antigo lixão existente sobre o mesmo. Os poços têm profundidade média de 100 m e sua vazão varia de 10 a 40 m³/h.

 

    3. Embasamento Cristalino

    Este aqüífero é pobre e as vazões normalmente encontradas são baixas. É formado por rochas migmatíticas e as vazões encontradas ocorrem em estruturas geológicas ou fraturamentos encontrados nessas rochas. Curitiba e os municípios próximos localizados a leste, a oeste e ao sul dispõe desse aqüífero. É um aqüífero protegido. 70% dos poços perfurados têm suas entradas de água situadas entre 50 e 200 m de profundidade, porém em 58% deles, sua produção é limitada entre 2 e 10 m³/h.

    Já é fato conhecido em Curitiba, que devido ao grande número de poços construídos por edifícios e condomínios, e devido a proximidade entre eles, já se tem conhecimento da exaustão e de contaminação do aqüífero. A forma mais provável de contaminação é aquela provocada pela má qualidade das construções dos poços, especialmente quando não há os "selos sanitários". Este fator, aliado à prática usual de exploração desordenada, sem fiscalização e sem tratamento químico adequado desta água, pode colocar em risco a saúde dos usuários quando utilizada para abaste-cimento humano.

 

    Conclusões

    O crescimento urbano desordenado e de uma agricultura predatória sobre os rios utilizados para o abastecimento público, tem apresentado graves reflexos na qualidade das águas, com altos custos econômicos e sociais. A lógica da degradação progressiva dos mananciais próximos às cidades, transformando-os em cadáveres fétidos que envergonham a paisagem das principais cidades brasileiras, apresenta limites ambientais que se tornam mais claros a cada dia, demonstrando situações críticas em cenários de um futuro próximo;

    · O setor de saneamento necessita incluir o desafio da conservação de mananciais nas diversas etapas do processo, desde o planejamento até a operação, em todos os níveis institucionais das companhias de saneamento;

    · Os novos projetos devem avaliar os pontos de captação, considerando cenários futuros de desenvolvimento para relacionar as diferentes opções técnicas. Esta definição deve ser realizada após negociações interinstitucionais onde as conseqüências ao desenvolvimento das diferentes alternativas, tenham sido informadas e discutidas;

    · As informações sobre a definição de mananciais, suas áreas de influência e conseqüências ao desenvolvimento devem ser amplamente demonstradas por meio de instrumentos específicos de informação para os diferentes níveis (escolas, políticos, agricultores, ONGs, associações profissionais, associações de empresários e trabalhadores, sindicatos, etc.) ;

    · Deve ser acompanhada a execução de Planos de Mananciais, compostos no mínimo de Programas de uso e manejo de solos, organização do desenvolvimento urbano, minimização de riscos de transporte, controle da poluição industrial, monitoramento e divulgação através de estrutura específica.

 

    Referências bibliográficas

    DALARMI, O. Utilização futura dos recursos hídricos da Região Metropolitana de Curitiba. Sanare, Curitiba, v.4, n.4, p.31-43. 1995.

    DECONTO, L; SANTOS, J.C.R. Produção de desinfetantes in loco: experiência  da SANEPAR. Sanare, Curitiba, v.4, n.4, p. 15-21. 1995.

    JAPAN INTERNATIONAL COOPERATION AGENCY. The master plan study on the utilization of water resources in Paraná State. Curitiba, 1995.

    LARA, A. I.; ANDREOLI, C.V.; ANDREOLI, F.N.. Conservação e mananciais: a visão das companhias de saneamento. In: CONGRESSO BRASILEIRO DE  ENGENHARIA SANITÁRIA E AMBIENTAL (20. : 1999 : Rio de Janeiro). Anais... Rio de Janeiro : ABES, 1999. Em Cd-Rom.

    MAZUCHOWSKI, J. Z.; TOSIN, P. C. Curso de gestão ambiental municipal. Curitiba : Consórcio do Rio Tibagi, 1997

    SANTOS, R.J.R. Programa de Conservação de Mananciais. Sanare, Curitiba, v.9, n.9, p.33-40. 1998.

 

    Agradecimentos

 

    Os autores são gratos ao engenheiro Arlineu Ribas da USHG - Unidade de Serviço de Hidrogeologia da Sanepar, pelas informações sobre os aqüíferos subterrâneos.

 

 

    Autores

 

    Cleverson Vitório Andreoli,

    Engenheiro agrônomo, mestre em Agronomia, doutor em Meio Ambiente e Desenvolvimento, professor do Departamento de Solos da UFPR, coordenador do Programa Interdisciplinar de Pesquisa sobre Gestão de Mananciais da Sanepar

   

    Osvaldo Dalarmi,

    Engenheiro civil, especialista em Saneamento Básico, engenheiro da Sanepar de 1964-1998

   

    Aderlene Inês Lara,

    Bióloga, MSc em Zoologia, pesquisadora do Programa Interdisciplinar de Pesquisa em Reciclagem Agrícola do Lodo de Esgoto - Plano de Gerenciamento de Mananciais da Sanepar

 

    Eloize Motter Rodrigues,

    Engenheira química, especialista em Gestão Técnica do Meio Urbano, engenheira técnica da Sanepar

 

    Fabiana De Nadai Andreoli,

    Engenheira civil, MSc. em Engenharia Ambiental, professora do Departamento de Engenharia Civil da Pontifícia Universidade Católica do Paraná - PUC-PR, pesquisadora do Instituto de Saneamento Ambiental - Isam/PUC-PR.