ANÁLISE BACTERIOLÓGICA DA ÁGUA NA UNIVERSIDADE FEDERAL DO PARANÁ – SUBSEDE DO SETOR DE CIÊNCIAS DA SAÚDE, JARDIM BOTÂNICO - CAMPUS III

 

Eliane Rose Serpe Elpo

Eliane Carneiro Gomes

Heloísa Máximo Espínola

 

Resumo

 

Avaliou-se a qualidade microbiológica da água, destinada ao consumo humano distribuída pela Companhia de Saneamento do Paraná (Sanepar) na Subsede do Setor de Ciências da Saúde (Jardim Botânico) da Universidade Federal do Paraná. Utilizou-se o método de fermentação em tubos múltiplos que determina o Número Mais Provável (NMP) de bactérias coliformes totais e fecais/100 ml. Os resultados obtidos para as 48 amostras de água, correspondentes aos 16 pontos de coleta, registraram valores inferiores a 1,1 bactérias coliformes totais e fecais/ 100ml de água analisada. Concluiu-se que a água, sob o ponto de vista bacteriológico, está de acordo com a legislação vigente. O trabalho foi realizado no laboratório da disciplina de Saúde Pública do curso de Farmácia da Universidade Federal do Paraná (UFPR).

 

 Abstract

 The microbiological quality of water destined for human consumption distributed by Companhia de Saneamento do Paraná (Sanepar) at the Health Sciences Sector Unit (Jardim Botânico) was evaluated. The method employed was based on fermentation in multiple tubes, determining the Most Probable Number (MPN) of coliform and fecal bacteria per 100 ml. The results obtained for 48 samples of water, corresponding to 16 collection points, registered values below 1.1 total coliform and fecal bacteria per 100 ml of analyzed water. It was concluded that the water, from the bacteriological viewpoint, is in accordance with existing legislation. Measurements were performed in the laboratory used for the Public Health course for the Pharmacy undergraduate program at the Federal University of Paraná (UFPR).

  Introdução

 

Nas águas, do ponto de vista sanitário, o que realmente põe em risco a saúde pública é a ocorrência de poluição fecal, pela possibilidade de estarem presentes também microrganismos patogênicos intestinais, como bactérias, vírus, protozoários e ovos de helmintos, agentes freqüentemente responsáveis por doenças de veiculação hídrica (GELDREICH, 1974). É claro que isto somente é verdadeiro se forem excluídos deste grupo de enfermidades os envenenamentos ocasionados por substâncias químicas, que normalmente são oriundas de despejos industriais (ROCHA, 1974).

No entanto, a evidência direta daqueles agentes patogênicos na água é tecnicamente bastante difícil. Por estes motivos, empregam-se métodos indiretos na investigação da presença ou não de poluição de origem fecal nas águas, pesquisando-se bactérias indicadoras de poluição fecal. Para isto são pesquisadas rotineiramente as bactérias do grupo coliforme, pois, geralmente, elas estão presentes quando ocorre poluição de origem fecal e ausentes quando não ocorre tal poluição (BRANCO,1972; CRISTOVÃO et al., 1974; GELDREICH, 1974; NYSDH, 1971 ). Deste modo, verificando-se a presença de bactérias coliformes em uma água pode-se considerar que ela recebeu matéria fecal e passa a ser potencialmente perigosa à saúde humana, pelo fato de ser capaz de veicular microrganismos patogênicos intestinais, que são também eliminados habitualmente com as fezes (AMERICAN WATER WORKS ASSOCIATION, 1970; BRANCO,1974; CRISTOVÃO et al., 1974; CETESB, 1993).

O presente trabalho teve como objetivo avaliar a qualidade microbiológica da água destinada ao consumo humano distribuída pela Sanepar na Subsede do Setor de Ciências da Saúde (Jardim Botânico) da Universidade Federal do Paraná (UFPR), empregando o método de fermentação em tubos múltiplos que determina o Número Mais Provável (NMP) de bactérias coliformes/100 ml.

 

 

Material e métodos

 Material

 Empregaram-se para a análise bacteriológica da água, da Subsede do Setor de Ciências da Saúde da UFPR os materiais indicados pela APHA (1992) e CETESB (1993).

 Métodos

 Coleta da amostra

A metodologia para coleta de águas tratadas baseou-se nos padrões estabelecidos por SOUZA e DERISIO (1977), pela APHA (1992) e pela CETESB (1993).

 Amostragem

A amostragem compreendeu 16 pontos de coleta, na Subsede do Setor de Ciências da Saúde da UFPR sendo coletadas 3 amostras de 100 ml em cada ponto, num total de 48 amostras.

 

Transporte, preservação e prazo para análise das amostras

As amostras foram transportadas em caixa de isopor com gelo e conservadas até o momento das análises em temperatura inferior a 10ºC.

O tempo decorrido entre a coleta das amostras e o início do exame bacteriológico foi, em média, de meia hora, não se ultrapassando o limite de armazenamento das mesmas, que é de 24 horas (Standard Methods).

 

Meios de cultura empregados

• Caldo lauril triptose-CL (g/l) Concentração dupla (Laboratórios Britania)

No preparo deste meio foi seguida a técnica recomendada pelo fabricante, que consiste em dissolver 71.2 g do meio desidratado em 1000 ml de água destilada fria, sob agitação e posterior repouso por 5 minutos. Foram distribuídos 10 ml do meio em tubos de ensaio, contendo tubos de Durham, os quais foram tampados com tampões de algodão hidrófilo e esterilizados em autoclave a 121º C, por 15 minutos. O caldo foi resfriado, imediatamente, após a esterilização, apresentando pH final 6,8 + 0,2 e, estocado em temperatura ambiente até o momento do uso (REINHARDT,1984; CETESB,1993).

• Caldo lactosado verde brilhante-VB (g/l) Concentração simples (Biobrás S.A.)

Conforme as instruções do fabricante foram adicionadas, 40 g do produto desidratado em 1000 ml de água destilada. Após sua dissolução completa, o meio foi distribuído em volumes de aproximadamente 10 ml , em tubos de ensaio, contendo em seu interior o tubo invertido de Durham. Os tubos foram tampados com tampões de algodão hidrófilo e, em seguida, esterilizados em autoclave a 121º C, por 15 minutos. O caldo esterilizado apresentou pH final 7,2 + 0,2, sendo estocado em temperatura ambiente e ao abrigo da luz, até o momento do uso (REINHARDT, 1984; CETESB,1993).

• Caldo EC(g/L) – Concentração simples (Laboratórios Britania)

Para preparar este meio, segundo as recomendações do fabricante, foram dissolvidos 37,4 g do produto desidratado em 1000 ml de água destilada. Aqueceu-se o meio sob agitação freqüente até sua completa dissolução. Volumes de 10 ml do meio foram distribuídos em tubos de ensaio medindo 16 x 150 mm, contendo em seu interior tubo invertido de Durham. Após a distribuição do meio, os tubos foram tampados com tampões de algodão hidrófilo e esterilizados em autoclave a 121ºC por 15 minutos, o meio apresentou pH final 6,9 + 0,1, sendo estocado em temperatura ambiente até o momento do uso (REINHARDT, 1984; CETESB,1993).

 

 Procedimento

 O exame bacteriológico da água seguiu a metodologia descrita pela APHA (1992), baseada no Método de Fermentação em Tubos Múltiplos, que determina o Número Mais Provável (NMP) de coliformes/100ml de amostra de água. O NMP corresponde a uma estimativa da densidade destas bactérias pesquisadas a partir da combinação de resultados positivos e negativos (CETESB,1993).

 

 Pesquisa de coliformes

 A pesquisa de coliformes na água foi executada segundo a AWWA (1970), a APHA (1992) e CETESB (1993).

Neste trabalho, realizou-se apenas a prova de presunção, já que não houve crescimento microbiano. Para tanto, 10ml da água, devidamente, homogeneizada foram assepticamente inoculados em 10 tubos de caldo lauril triptose (CL), contendo tubo de Durham, os quais foram incubados em estufa a 35ºC por 24-48 horas.

 

 Resultados e discussão

 Os resultados das análises da água são apresentados na tabela 1. Comparando os dados obtidos com o índice NMP/100 ml (APHA,1992) observou-se que nenhum dos 16 locais de coleta de água apresentou positividade para coliformes totais e fecais, revelando que se trata de água própria para o consumo.

De acordo com o Ministério da Saúde, água potável é aquela que apresenta a qualidade adequada ao consumo humano, respeitando-se os padrões de potabilidade, quanto às características físicas, organolépticas, químicas, radioativas e bacteriológicas. Para esta última característica, o Ministério da Saúde recomenda que água potável deve apresentar ausência de bactéria do grupo coliforme / 100 ml (BRASIL,1990). Assim, a água fornecida para a Subsede do Setor de Ciências da Saúde, representada pelo ponto de entrada (PE) recebeu tratamento adequado pela Companhia de Saneamento do Paraná (Sanepar).

E, a água dos demais pontos de coleta, proveniente das cisternas (C1, C2), bebedouros (BO, BCA, BN, BF), laboratórios (LP, TA, CQ, SM, NA), cozinhas(CA,CB) e copa (CO), também é de boa qualidade, demonstrando que houve manutenção e limpeza adequadas das cisternas. Além disso, mostra que não houve infiltrações nas tubulações de distribuição nos locais de coleta.

Isto é esperado, pois a Sanepar tem uma programação de 10 parâmetros, que representam o índice de qualidade da água distribuída na Região Metropolitana de Curitiba, correspondentes as análises de pH, turbidez, cor, oxigênio consumido, Ferro, Cloro Residual, Flúor, Manganês, coliformes totais e fecais. Estas, são coletadas diariamente em reservatórios e em locais críticos da rede, perfazendo um total de 420 amostras ao mês. Dados obtidos junto a este órgão, indicam que não há presença de coliformes totais e nem fecais, nas amostras correspondentes a esta região em que se localiza esta subsede da UFPR , bem como nos demais pontos analisados, na Região Metropolitana de Curitiba, demonstrando que a qualidade da água sob o ponto de vista sanitário, é satisfatória (SANEPAR,2001).

Por outro lado, VASCONCELOS; AQUINO (1995) realizaram levantamento das condições sanitárias da água consumida em escolas públicas de conjuntos habitacionais da zona oeste de Manaus (Amazonas). Analisaram bacteriologicamente 66 amostras de água oriundas de poços e da Companhia de Saneamento do Amazonas (Cosama), mediante a técnica da membrana filtrante para os coliformes totais e fecais e da contagem padrão em placa para microrganismos mesófilos. Estes autores verificaram que a água fornecida pela Cosama nas 11 escolas eram poluídas por coliformes de origem fecal, com exceção de duas, que apresentaram coliformes provenientes do solo e/ou de vegetais.

Também, com relação ao tratamento de água pela Cosama, na Ponta do Ismael (no Rio Negro), foi efetivo no controle de coliformes e está de acordo com os padrões de potabilidade estabelecidos pelo Ministério da Saúde. Assim, é possível que a fonte de contaminação da água fornecida pela Cosama aos colégios, seja devida a infiltrações na tubulação de distribuição. Outra causa provável, pode ser atribuída à falta de limpeza e manutenção periódica dos reservatórios das escolas, assim como a troca das velas dos bebedouros. Além disso, a ausência de filtro observada em algumas escolas, pode explicar a elevada contaminação por coliformes da água distribuída pela Cosama (NORMANDE ,1992).

 

Conclusão

 Os resultados obtidos neste trabalho indicaram que a água utilizada na Subsede do Setor de Ciências da Saúde da Universidade Federal do Paraná mostrou-se própria para o consumo humano, sob o ponto de vista bacteriológico. A água fornecida pela Sanepar recebeu tratamento adequado, assim como houve correta manutenção e limpeza de cisternas.

 

 Referências

 AMERICAN WATER WORKS ASSOCIATION. Standard methods for examination of water and wastewater. 18.th. Washington : American Public Health Association. 1992. p. 9-13; 9-26.

 AMERICAN WATER WORKS ASSOCIATION. Processos simplificados para exame e análise da água. São Paulo,1970. p.179-229

 BRANCO,S. M. Remoção de microrganismos nas diversas fases dos processos de tratamento de águas de abastecimento. Efeitos da sedimentação natural em represas: remoção de organismos na floculação, decantação e filtração. In: Companhia Estadual de Tecnologia de Saneamento Básico e de Controle de Poluição das Águas. Desinfecção de águas. São Paulo, 1974. p. 5-10.

 BRASIL. Ministério da Saúde. Portaria n. 36 de 19 de Janeiro de 1990. Dispõe sobre as normas e o padrão de potabilidade da água destinada ao consumo humano, a serem observados em todo o território nacional. Diário Oficial da República Federativa do Brasil, Brasília, 23 jan. 1990, p.1651. Seção 1.

 CHRISTOVÃO, D. A. et al. Padrões bacteriológicos. In: Água, qualidade, padrões de potabilidade e poluição. São Paulo : Companhia Estadual de Tecnologia de Saneamento Básico e Controle de Poluição das Águas, 1974. p. 57-119.

 COMPANHIA DE TECNOLOGIA DE SANEAMENTO AMBIENTAL. Coliformes totais e fecais: determinação pela técnica dos tubos múltiplos. São Paulo, 1993. 39p.

 COMPANHIA DE SANEAMENTO DO PARANÁ. Índice de qualidade da água distribuída da região metropolitana de Curitiba. Dados emitidos por fax. Maio de 2001. 1 f.

 GELDREICH,E.E. Aspectos microbiológicos dos esgotos e dos seus processos de tratamento. In: Companhia Estadual de Tecnologia de Saneamento Básico e de Controle de Poluição das Águas. Desinfecção de águas. São Paulo, 1974. p. 115-134.

 NEW YORK STATE DEPARTMENT OF HEALTH. Manual para operadores de estações de tratamento de água. São Paulo : Universidade de São Paulo, 1971.

 NORMANDE, A .C.L. Avaliação microbiológica da água da rede de distribuição pública da cidade de Manaus, AM. com referência a sua potabilidade. Manaus, 1992. 49 f. Dissertação (Mestrado) - Instituto Nacional de Pesquisa da Amazônia/ Fundação Universidade do Amazonas.

 REINHARDT, N.M. Condições sanitárias e classificação das águas do mar destinadas à balneabilidade de praias do Estado do Paraná,1980. São Paulo,1984. Tese (Doutorado em Saúde Pública) - Departamento de Saúde Ambiental, Faculdade de Saúde Pública, Universidade de São Paulo.

 ROCHA, A. A. Critérios de balneabilidade para classificação das praias do litoral paulista: estudo conceitual. São Paulo: Companhia Estadual de Tecnologia de Saneamento Básico e de controle de poluição das águas, 1974.

 SOUZA,H.B.; DERISIO,J.C. Guia técnico de coleta de amostras de água. São Paulo : CETESB, 1977. p. 195-199.

 VASCONCELOS, J.C.; AQUINO,J.S. Análise microbiológica (potabilidade) da água consumida em Escolas Públicas de conjuntos habitacionais da Zona Oeste de Manaus-Amazonas. Boletim do Centro de Pesquisa e Processamento de Alimentos, v. 13, n. 2, p. 119-124, jul/dez. 1995.

 

 

Autores

 

Eliane Rose Serpe Elpo,

farmacêutica bioquímica, professora adjunta do curso de Farmácia do

setor de Ciências da Saúde da UFPR

 

Eliane Carneiro Gomes,

farmacêutica bioquímica, professora assistente da disciplina de Saúde Pública do curso de Farmácia da UFPR

 

Heloísa Máximo Espínola,

farmacêutica em estágio

em Basel, Suíça.