OPINIÃO

 

PROBLEMAS ECOLÓGICOS,

TENTATIVAS DE SOLUÇÃO

 

Enio Neth de Goss

 

Um ecossistema consiste em um sutil equilíbrio entre forças contraditórias e de cooperação. Tal sistema se desenvolveu durante de milênios e foi moldado na luta pela sobrevivência. Quando os seres humanos intervêm e alteram qualquer elemento desse sistema equilibrado, a interferência tem conseqüência em todo ele – alguns morrem e outros aumentam a números alarmantes, porque ou a sua fonte natural de comida é escassa ou eliminada, ou os seus inimigos naturais são enfraquecidos ou mortos. O que era antes um sistema harmonioso, operante, autocorregidor e autolimitador pode tornar-se um tipo de câncer, desenvolvendo-se desproporcionalmente ou pode ainda murchar e morrer. De qualquer forma, a interferência humana criou mais problemas do que resolveu. Tal é a lição que só agora estamos aprendendo – e mesmo assim, com uma penosa lentidão.

Os problemas ecológicos são problemas sociais porque ameaçam a sobrevivência humana; são problemas sociais porque são causados pelos padrões institucionalizados da atividade humana, padrões do pensamento humano e dos valores humanos. Assim, para que as soluções para as crises ecológicas sejam eficientes, devem atacar não só o problema do meio ambiente violado – mas também as causas – os padrões do comportamento humano que sustentam e legitimam a violação.

Há quatro maneiras pelas quais os problemas ecológicos podem ser atacados: por meio de movimentos sociais, intervenção política, inovação tecnológica e autocorreção institucional.

 

 Movimentos sociais

Talvez a maior aquisição para o movimento ecológico tenha sido a conscientização crescente, por parte da sociedade ocidental de que algo precisa ser feito a favor do meio ambiente. Este elemento de conscientização é essencial para o melhoramento de um problema social. Compreendemos que o uso impróprio do meio ambiente tem sido, em potencial social, por muitos séculos. Mas somente há poucos anos tem havido interesse público amplo pela qualidade do meio ambiente.

Organizações civis dedicadas à qualidade ambiental foram organizadas por toda sociedade ocidental. Muitas delas se dedicaram à educação do cidadão, ou seja, à criação de valores novos para o meio ambiente e seus problemas, por meio de campanhas de cartas, petições e assim por diante. Outras exerceram pressão com táticas de grupos de pressão em nível local: interrogando candidatos a cargos públicos e publicando os resultados da votação ambiental daqueles, exercendo cargos públicos. Outras táticas incluíram antigas leis que não estão sendo cumpridas, mas que são potencialmente úteis na luta para salvar o meio ambiente. As táticas do grupo de pressão resultaram na elaboração de novas leis e, em alguns casos, no mínimo para colocá-las em vigor, de forma eficaz.

Se bem que poucas pessoas poderiam negar que o movimento ambiental dos últimos anos tenha tido impacto significante na opinião pública; pouca evidência existe para sugerir que esta tenha mudado em um plano mais fundamental, ou seja, tenha alcançado uma disposição em abandonar alguns "confortos materiais" para conseguir um meio ambiente melhor. Um governador de estado se compromete a aumentar a industrialização e assim criar novos empregos, bem como a melhorar a qualidade da água. E a primeira promessa, na maioria dos casos, é reforçada pela pressão de grupos mais poderosos que a última.

Os criminosos reais por trás dos problemas ambientais, então, são os padrões de hábitos e as maneiras institucionalizadas de fazer as coisas. Embora o movimento ambiental tenha conseguido sensibilizado muitas pessoas a ver os problemas em termos de suas causas verdadeiras, de fato, pouco foi realizado para resolver esses problemas.

 

 Intervenção política

 Desde o desenvolvimento do movimento ambiental, os homens e órgãos do governo têm desempenhado um papel maior do que anteriormente em legislar contra a poluição e fazer vigorar tal legislação. A eficácia desta legislação varia muito.

Considere o exemplo típico de um grupo de fábricas lançando fuligem ao ar e resíduos em riachos e lagos próximos. Um regulamento local proíbe tais práticas de poluição, mas o mesmo não vigora há décadas. Nos últimos anos, grupos atentos à poluição, com freqüência consistindo de voluntários de várias organizações antipoluição, trouxeram essas violações à atenção dos homens da lei, e insistiram quanto à execução do regulamento. Entretanto, mesmo quando o grupo de cidadãos obtêm êxito, as penalidades pela violação, embora severas para um indivíduo, são muitas vezes demasiado pequenas para uma companhia. Na verdade, a economia representada pela poluição do ar e da água tornou consideravelmente mais barato para as indústrias sujarem o meio ambiente e pagarem as penalidades do que corrigir o problema. Numa localidade, por exemplo, uma grande fábrica de alumínio estava poluindo um rio límpido da montanha e o seu divisor de águas rio abaixo. Quando a pressão foi realmente imposta, a fábrica simplesmente ameaçou desmontar tudo e ir embora. Vindo virtualmente do único grande empregador de uma vasta área do país, a ameaça teve um efeito muito real. A fábrica ainda está lá, e poluindo o rio.

É concebível que os interesses mútuos do governo e da indústria irão eventualmente funcionar em benefício dos defensores do meio ambiente. Se o movimento ambiental tornar politicamente impossível que um homem público ignore os interesses públicos, então a indústria poderá ser responsabilizada pelo problema da poluição. E se as soluções tecnológicas para os problemas da poluição forem praticáveis, ou até possíveis, a pressão governamental poderá ser usada para forçar a indústria a providenciá-las.

 

 Inovação tecnológica

e autocorreção institucional

 Uma maneira pela qual poderia ser desenvolvida a habilidade da tecnologia e da ciência em suavizar os problemas da poluição seria por meio da criação de "missões" com tarefas orientadas. Iniciadas por comissões planejadoras e mantidas pelo dinheiro de impostos, estes seriam projetos especiais traçados para estudar e resolver aspectos específicos do problema ambiental. Em forma, elas assemelhariam a das missões destinadas a colocar as pessoas na lua e a criar a bomba atômica.

O que está ocorrendo é que as indústrias estão recebendo dinheiro de impostos, ou usando os lucros excedentes para desenvolverem "soluções" tecnológicas para problemas do meio ambiente de muito pouco alcance.

Como salientado sobre movimentos sociais e ação política, a solução da crise ecológica exige uma transformação social e cultural da sociedade. Sintetizando o problema e fornecendo um argumento contra a solução tecnológica para a poluição, Rex Campbell e Jerry Wade afirmam:

"Não só a fé na tecnologia nos ofusca para as bases não-tecnológicas da crise ambiental, como também tende a resultar em um método inadequado para resolver o problema. Este método foi bem-sucedido para colocar o homem na lua; era uma questão técnica e, com esforço apropriado, um americano foi o primeiro na lua. Esta abordagem, de fato, consegue uma solução. A atitude assumida de que podemos obter uma solução para qualquer problema se apenas aplicarmos bastante dinheiro funciona muito bem, contanto que a solução seja o desenvolvimento e o uso de aparelhagem técnica. Alguns tentariam definir a qualidade ambiental como este tipo de problema. Entretanto, o ponto de vista aqui é que a poluição e a população são basicamente problemas humanos e não tecnológicos. O problema abrange pessoas, recursos naturais limitados, ecossistemas desequilibrados e sistemas mantenedores da vida".

 Os problemas pertinentes ao meio ambiente foram abordados por meio de movimentos sociais, intervenção política, inovação tecnológica e autocorreção institucional. Mas apesar das soluções propostas para a crise do meio ambiente, a grande maioria dos habitantes do mundo ocidental, depende dos produtos da tecnologia moderna que são os responsáveis pela poluição. Assim, embora defendendo, "da boca para fora" o objetivo de conservação, as pessoas, em sua maioria, estão de fato relutantes em sacrificar o estilo de vida "civilizado". Portanto, esses problemas relativos à poluição do meio ambiente, afetam toda área de vida humana – meios de ganhar a vida, os confortos físicos, a recreação e os valores sociais.

As soluções, sem dúvida alguma, difíceis de serem achadas de comum acordo e certamente serão executadas muito devagar.

 

 Autor

Enio Neth de Goss, sociólogo.