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Sanepar transforma madeiras do Reservatório Miringuava em material para primeira xiloteca caiçara do Paraná

Projeto em parceria com a UFPR Litoral e a Associação de Cultura Popular Mandicuera é fundamental para salvaguardar o conhecimento sobre a Mata Atlântica e a cultura tradicional caiçara. Peças farão parte do acervo da própria Companhia, do MAE-UFPR e da associação

01/06/2026 -
Paranaguá

A Companhia de Saneamento do Paraná (Sanepar) destinou madeiras da supressão vegetal do Reservatório Miringuava para a formação da primeira xiloteca caiçara do Paraná. O projeto, em parceria com a Universidade Federal do Paraná – Campus Litoral e a Associação de Cultura Popular Mandicuera, alia a sustentabilidade à educação ambiental ao preservar o conhecimento sobre as árvores da Mata Atlântica e fortalecer a cultura tradicional caiçara. A madeira dará origem a três coleções: uma para a Sanepar, uma para o Museu de Arqueologia e Etnologia da UFPR (MAE) e outra para a Associação Mandicuera. 

O engenheiro florestal Aurélio Lourenço Rodrigues, coordenador de serviços e sistemas de gestão ambiental da Sanepar, explica que a xiloteca faz parte das ações da Companhia para preservar a memória das principais espécies lenhosas da flora da região do Reservatório Miringuava. “Difundir o conhecimento das árvores da Mata Atlântica, em que algumas espécies do Miringuava também são comuns para a comunidade caiçara, contribui para a educação ambiental. Nem todo mundo tem acesso à floresta, então a proposta é exatamente a de preservar esse material para que as pessoas possam conhecê-lo de uma outra forma”, declara. 

ESPÉCIES – De acordo com o engenheiro florestal Fernando Bechara, professor do curso de licenciatura em Educação do Campo da UFPR Litoral e vice-coordenador do projeto, foram catalogadas 44 espécies de madeira. Entre os exemplares, estão o cedro rosa, uma madeira comercial e muito utilizada na movelaria e na construção de casas caiçaras. 

O carvalho é outra espécie que compõe o acervo e é um exemplo de como as peças físicas possibilitam conectar diversas informações sobre a madeira e os processos da natureza. “O carvalho é uma madeira pesada, que cresce devagar, agrega as fibras e fica mais densa, com menos ar. Já a madeira leve cresce muito rápido e junta muito ar. A madeira mais pesada vai sequestrar mais carbono do que uma madeira mais leve”, explica. 

Outro exemplar é a casca de anta, uma espécie de cataia utilizada pelas antas para cicatrização de ferimentos. “O curioso é que no Litoral também tem uma cataia, mas é de outra família, que na verdade é uma pimenta (Pimenta pseudocaryophyllus). Ambas têm eugenol, um óleo medicinal e muito utilizado para fazer o uísque caiçara. Então é muito importante na cultura caiçara”, afirma Bechara. 

EDUCAÇÃO – A criação de uma xiloteca era um sonho antigo de Aorélio Domingues, fundador e mestre da Associação de Cultura Popular Mandicuera, para disseminar e salvaguardar o conhecimento e a cultura tradicional das madeiras utilizadas nos usos e costumes caiçaras para as novas gerações. “A juventude já não tem acesso à floresta como nós tivemos. A gente tem um conhecimento muito vasto dessas madeiras e hoje notamos que os jovens estão perdendo isso. A xiloteca tem a frente de uma educação popular, que, além de libertadora, está focada no que faz sentido dentro da comunidade”, destaca. 

Segundo Domingues, essa será a primeira xiloteca do Litoral. “Ela é muito importante no sentido que os livros não deram conta de preservar esse conhecimento por causa da linguagem científica e pela dificuldade de identificar a madeira em uma fotografia. Com a xiloteca você pega na madeira, sabe se é leve, pesada, branca, vermelha, qual a textura, a sonoridade. A gente já entende a propriedade daquela madeira tocando nela, se é boa para barco, casa ou para instrumento. É muito mais interessante uma criança pegar peças de madeira, algo concreto que traz o universo dela. É muito mais rápido do que ficar tentando explicar”, afirma o mestre. 

O processo de criação das peças da xiloteca envolve o corte, o beneficiamento e a catalogação das madeiras, que são identificadas pelo nome popular, científico e a localização geográfica dentro do território. Com apoio técnico da UFPR Litoral, o mestre Aorélio já produziu as peças que serão destinadas à Sanepar e ao MAE. A próxima etapa é beneficiar as madeiras que ficarão na associação e terão características diferentes das outras peças para tornar o conhecimento tradicional ainda mais acessível. 

CIÊNCIA E TRADIÇÃO – Para o povo que vive da floresta e do mar há mais de 500 anos, organizar o saber tradicional caiçara ultrapassa o benefício à própria comunidade – cria uma rede de conhecimento junto à universidade e às pessoas interessadas em conhecer as madeiras nativas da Mata Atlântica. “A proposta da xiloteca era da comunidade e veio ao encontro de ações da universidade. E a Sanepar já tinha exemplares de madeiras catalogadas, o que acelerou muito o processo. Foi muito importante a chegada da Sanepar junto com a comunidade, construindo relações que vão além da água, que traz outras correntes”, acredita Domingues. 

A professora Andressa Tavares, coordenadora do projeto e docente do curso de licenciatura em Educação do Campo da UFPR Litoral, destaca que a xiloteca articula o conhecimento tradicional com o científico, promovendo o diálogo com as comunidades do litoral. “Tivemos a sorte de encontrar a Sanepar construindo o Reservatório Miringuava no momento em que precisávamos. Este foi o pontapé, e agora queremos produzir materiais bibliográficos, didáticos e digitais para disponibilizar esse conhecimento também na internet. Traz benefícios para a comunidade local e para a sociedade em geral”, acrescenta.

Galeria de fotos

Aorélio Domingues, fundador e mestre da Associação de Cultura Popular Mandicuera Aorélio Domingues, fundador e mestre da Associação de Cultura Popular Mandicuera Aorélio Domingues, fundador e mestre da Associação de Cultura Popular Mandicuera
Entre os exemplares catalogados, estão o cedro rosa, uma madeira comercial e muito utilizada na movelaria e na construção de casas caiçaras Entre os exemplares catalogados, estão o cedro rosa, uma madeira comercial e muito utilizada na movelaria e na construção de casas caiçaras Entre os exemplares catalogados, estão o cedro rosa, uma madeira comercial e muito utilizada na movelaria e na construção de casas caiçaras
Xiloteca faz parte das ações da Companhia para preservar a memória das principais espécies lenhosas da flora da região do Reservatório Miringuava Xiloteca faz parte das ações da Companhia para preservar a memória das principais espécies lenhosas da flora da região do Reservatório Miringuava Xiloteca faz parte das ações da Companhia para preservar a memória das principais espécies lenhosas da flora da região do Reservatório Miringuava
44 espécies de madeira foram catalogadas para o projeto da xiloteca 44 espécies de madeira foram catalogadas para o projeto da xiloteca 44 espécies de madeira foram catalogadas para o projeto da xiloteca
Professora Andressa Tavares, coordenadora do projeto e docente do curso de licenciatura em Educação do Campo da UFPR Litoral, e a voluntária do projeto da xiloteca, Vitória Rodrigues de Paula Professora Andressa Tavares, coordenadora do projeto e docente do curso de licenciatura em Educação do Campo da UFPR Litoral, e a voluntária do projeto da xiloteca, Vitória Rodrigues de Paula Professora Andressa Tavares, coordenadora do projeto e docente do curso de licenciatura em Educação do Campo da UFPR Litoral, e a voluntária do projeto da xiloteca, Vitória Rodrigues de Paula
Aorélio Domingues, fundador e mestre da Associação de Cultura Popular Mandicuera Aorélio Domingues, fundador e mestre da Associação de Cultura Popular Mandicuera Aorélio Domingues, fundador e mestre da Associação de Cultura Popular Mandicuera
Peças da xiloteca foram beneficiadas na Associação de Cultura Popular Mandicuera Peças da xiloteca foram beneficiadas na Associação de Cultura Popular Mandicuera Peças da xiloteca foram beneficiadas na Associação de Cultura Popular Mandicuera
Xiloteca vai ajudar a salvaguardar o conhecimento sobre as madeiras da floresta, também utilizadas na confecção de instrumentos musicais pela comunidade caiçara Xiloteca vai ajudar a salvaguardar o conhecimento sobre as madeiras da floresta, também utilizadas na confecção de instrumentos musicais pela comunidade caiçara Xiloteca vai ajudar a salvaguardar o conhecimento sobre as madeiras da floresta, também utilizadas na confecção de instrumentos musicais pela comunidade caiçara